Análise: cacique Raoni tem estatura para ganhar Prêmio Nobel da Paz

A imagem do cacique Raoni Metuktire, 89 anos, está atrelada à história de resistência dos indígenas brasileiros pelas terras dos antepassados. Desde a década de 1970, dentro e fora do Brasil, o líder caiapó tornou-se um dos mais conhecidos representantes dos povos e da floresta amazônica.

Nas últimas semanas, o nome de Raoni voltou com força ao noticiário. Primeiro, por causa de sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz, proposta pela Fundação Darcy Ribeiro. Ganhou ainda mais relevância depois que foi citado, de forma pejorativa, pelo presidente Jair Bolsonaro no discurso de abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Para melhor compreensão do seu papel, deve-se lembrar que a atuação junto às autoridades vem desde os anos 1950. Depois de aprender português com os sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas, o cacique conheceu o então presidente Juscelino Kubitschek. Vinte anos depois, estrelou um documentário com seu nome – dirigido pelo belga Jean Pierre Dutilleux -, apresentado em Cannes e indicado ao Oscar.

Nesta mesma época, entre os anos 1970 e 1980, durante a ditadura militar, a ação de madeireiros sobre as terras indígenas pôs Raoni no centro da luta violenta pela preservação da floresta na região do rio Xingu. O reconhecimento internacional teve novo impulso em 1989, quando o líder caiapó conheceu o cantor inglês Sting.

Levado pelo artista, Raoni esteve nos palcos em shows de 17 países. Nessa turnê, fez campanha pela preservação da Amazônia pela demarcação do Parque Nacional do Xingu. Obteve apoio de destacados líderes mundiais, como o Papa João Paulo II, os franceses François Mitterrand e Jacques Chirac, o rei Juan Carlos, da Espanha, e o Príncipe Charles, da Inglaterra.

Raoni envolveu-se nas duas décadas seguintes no movimento contrário à construção da Hidrelétrica de Belo Monte. A batalha foi perdida nos governos dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Com o início do governo Bolsonaro, pelo discurso e pela prática, as ameaças às causas defendidas pelo cacique se tornaram mais presentes. O avanço das queimadas e a devastação da Amazônia levaram Raoni a percorrer outra vez a Europa em 2019.

Visitou o presidente Francês Emmanuel Macron, o Papa Francisco e participou de encontros e manifestações contra a devastação de terras indígenas por madeireiros e fazendeiros. Pela dimensão política da causa amazônica, ele se tornou um símbolo das causas mais atuais do planeta.

Seis décadas depois de conhecer o presidente JK, Raoni representa – mais do que qualquer conterrâneo – a floresta e os povos atacados pela ganância destruidora da natureza e das culturas.

Com tanto tempo voltado para a defesa das causas dos habitantes originais da Amazônia, o líder indígena tem estatura para ganhar o Prêmio Nobel da Paz. A emblemática figura com a mandíbula inferior adornada por um labret – nome do disco de madeira, tradicional de seu povo, posto no lábio – carrega com legitimidade a história da Amazônia.

Nesse assunto, Bolsonaro chegou bem depois. Só se viu mesmo o interesse do capitão pela Amazônia depois da posse no Palácio do Planalto. Sem detalhar planos, mostra-se interessado em explorar as reservas indígenas, em especial o subsolo rico em minérios.

Pelo conjunto de circunstâncias, à revelia de Bolsonaro, pode-se observar que a intervenção contra Raoni na ONU teve até um efeito positivo na divulgação da candidatura ao Nobel da Paz. Deselegantes e de pouco conteúdo, as palavras do capitão chamaram atenção para o velho cacique.

Com mais esta projeção no mundo, Raoni ganha holofotes e se mostra como um brasileiro à altura do prêmio – mesmo com fortes concorrentes, como a adolescente sueca Greta Thunberg, estrela máxima na reunião da ONU, com também legítimo e vigoroso grito em nome das futuras gerações.

Greta e Raoni têm trajetórias, perfis e vidas absolutamente distintas. Mas ambos provocam o mundo com causas que – mesmo que muitos neguem – repercutem em todo o planeta.

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