Mesas lotadas, impeachment e filas marcam último almoço no Piantella

Funcionários antigos da casa lamentaram o fim. O clima no começo da tarde, no entanto, era de festa

Muito movimento, fila para entrar e mesas lotadas. Garçons correm para atender a clientela. Assim foi o último almoço do restaurante Piantella, na 202 Sul, no início da tarde desta quarta-feira (31/8). O horário coincidiu com a votação final do impeachment da ex-presidente da república Dilma Rousseff, impedida no Senado por 61 votos a 20. O estabelecimento era velho conhecido dos políticos. Aberta há 38 anos, a casa era ponto de encontro de parlamentares. De lá saíam decisões, acordos, traições e alianças políticas.

O dono do estabelecimento localizado na 202 Sul, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, comunicou a decisão a colegas de profissão, por meio de um grupo de whatsapp, e avisou os funcionários por volta de 9h30 de hoje. Mais conhecido como Kakay, ele lamentou o destino do restaurante, que considera “patrimônio imaterial da cidade”. Garantiu ter feito o possível para manter a casa, mas a crise financeira do país e as dívidas antigas do estabelecimento não deixaram.

Apesar do anúncio repentino, o ocaso do Piantella já fazia parte do menu de burburinhos brasilienses. Mas Edilson Maninho,

funcionário antigo do estabelecimento, tinha esperanças de que esse dia não chegasse. Aos 55 anos, o baiano de Brejolândia não era apenas garçom do restaurante. “Eu ajudei a levantar as paredes. Fui pedreiro, engenheiro, arquiteto e decorador”, brinca, sem perder o bom humor que o acompanha há 38 anos como funcionário da casa.

Ele recebeu a notícia com outros funcionários e lamenta, principalmente, perder o contato com os colegas do lado oposto do balcão. “Aqui tenho muitos amigos e isso é que vai fazer mais falta”, resume. O Piantella foi seu primeiro e único emprego na vida e, agora, ele diz não saber o que fará. “Vou ficar parado um tempo, para repensar”, resume.

 

No seu último dia de funcionamento, a casa parecia estar em festa — até mesmo seu proprietário, Kakay, passeava sorridente entre as mesas. A lotação do almoço chegou a quase sobrar e, segundo os garçons, a despedida teve gosto de lagosta e cerveja. Mas também era possível ver diversas garrafas de vinho, taças de gin tônica e martini, além de homens de terno, famílias reunidas, mulheres em vestidos e ninguém de camiseta.

Últimos momentos

A televisão do bar estava, claro, sintonizada na votação dos senadores. A algazarra dos comensais ficou amena no momento do anúncio do impedimento de Dilma Rousseff, mas a comemoração teve pouco entusiasmo — sorrisos demonstravam consentimento com a decisão e uma mulher gravava no celular a reação de quem estava lá. No salão, as conversas eram animadas e a espera para conseguir uma mesa chegava aos 40 minutos. Apreciando um carpaccio, o economista Olivier Mattos, 68 anos, lembrava que se tornou cliente em 1990. “Eu lamento muito. Porque sentirei falta de tudo. Dos garçons, da cozinha, da facilidade de encontrar os amigos.”

O Piantella era o mais tradicional reduto de poderosos de Brasília, entre políticos e empresários patriarcas de famílias tradicionais. Ulysses Guimarães e Luís Eduardo Magalhães tinham mesas cativas – há uma placa na parede em homenagem à mesa de Magalhães. O agora presidente interino Michel Temer, entre outros, também tinha mesa cativa no bar e no restaurante. O ex-ministro José Dirceu batia ponto no segundo andar, em sala reservada, para degustar vinhos com a cúpula do PT.

Ao Correio, Kakay fez questão de ressaltar a importância histórica do estabelecimento. “Optamos por fechar. O Piantella tem uma longa história. Bonita. De encontros políticos, familiares, de amores e namoros. Queremos lembrar só das coisas boas. Uma lembrança é a época do Diretas Já. O Piantella era o centro de tudo em Brasília, com almoços e jantares que não acabavam nunca. Ao piano, diversas composições políticas foram feitas por lá”, lembrou.

Kakay era dono do Piantella há mais de 17 anos. Em outubro de 2014, ele comprou os outros 50% de Marco Aurélio Costa, sócio e fundador. À época, o restaurante já acumulava dívidas astronômicas, apesar do cardápio com preços altos e da clientela poderosa e abonada.

Na tentativa de salvar o Piantella, Kakay recorreu ao Refis, o programa da Receita Federal que permite, sob certas condições, parcelar débitos tributários em até 180 meses. Chegou a estudar uma parceria com Alex Atala, o mais badalado chef brasileiro. Acabou recorrendo à mulher, a jornalista Valéria Vieira, formada em gastronomia pela Leiths School of Food and Wine de Londres. Fechou o Piantella para reforma e o reabriu dois meses depois, com o cardápio mais enxuto e a mesma equipe.

No ramo da gastronomia, o plano do casal é focar no outro restaurante, o Piantas, antigo Bistrô Expand, na 403 Sul. “Agora vamos tocar a vida com o Piantas, que é filho do Piantella”, destacou o advogado. Como um dos criminalistas mais requisitados de Brasília, Kakay, 58 anos, defendeu e defende muitos nomes de peso do meio político nacional. Conseguiu livrar o publicitário Duda Mendonça das acusações no mensalão do PT e tenta o mesmo com o ex-senador Demóstenes Torres em seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Fonte: Correio web

postado 31/08/2016 16:16

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